O Ensino Superior <br>e o «Circo Mariano»

Francisco Silva
In Memoriam de Zilda Carvalho
Chegou a vez dos Prós e Contras abordarem o Ensino Superior, grau de ensino que pressupõe a Investigação e a Ciência e a Tecnologia, e ainda a Cultura, a qual, no entanto, daí esteve arredada - é outro pelouro em termos ministeriais -, e já que o Ensino Superior estaria aí apenas para «dar» cursos profissionais superiores, para ser medido pela «empregabilidade» - os novos palavrões ou, vá lá, as novas palavras, a saltarem da terra como cogumelos -, e também - pois claro - pela capacidade de ganhar dinheiro em serviços prestados ao exterior para custear a formação idealmente grátis para o Estado, portanto, para as próprias empresas que, assim, conseguem ver reduzidas mais as necessidades em termos de receitas para o Estado. Estão a ver não é? Mas hoje não vou mais por aí.
A co-presidir Fátima Campos Ferreira (a Presidente residente) e o Ministro Mariano Gago (a Zilda Carvalho, com a sua lucidez bem me ajudou a cedo compreender onde tudo iria parar um dia, e ainda estávamos na fase do atraente «Circo Mariano» - como ela dizia). Sentado ao lado do Ministro, como a coadjuvar, Luís Moniz Pereira( ) (tanto a um como a outro destes dois cientistas me habituei a considerar como tais, mas aqui trata-se da questão política nesta curva apertadíssima da nossa História!). Nas bancadas fronteiras, o Presidente dos reitores (foi meu professor no princípio dos anos sessenta) e o novo Reitor da Universidade Clássica de Lisboa. Na assistência, reitores a esmo e também Rodrigo Costa, Vice- Presidente da PT e, entre outras coisas, responsável pelos «Activos Humanos» daquele grupo empresarial.
A bancada dos Prós - «prós» é sempre a favor da política governamental e/ou da corrente dominante do establishment do Poder - ainda teve uma ajudinha da parte privada da reitoral representação. O resto era os «Contras», mas todos, todos, perante o «seu» Ministro. Tudo preparado com minúcia para o ataque às Universidades Públicas, mesmo tendo em conta a presença quantitativamente elevada de personagens das mais distintas. E ficou claro qual era a linha principal de estratégia de ataque. Luís Moniz Pereira: corta nos meios para obrigar as Universidades a desenrascarem-se nos pagamentos de salários e os reitores e os Conselhos Directivos a serem bons gestores, a angariarem rendimentos como as empresas - uma ideia, de aprendiz de feiticeiro, a fazer em parte lembrar os argumentos por ocasião da caminhada para a União Monetária Europeia e para o Euro: são despesistas, a única maneira é pô-los a tinir, nada de possibilidade de desvalorização da moeda, nada de concessões em termos de controlo do défice do OE - vê-se o resultado da leviandade tecnocrática. Mas adiante, que estes já são outros contos.
Linha estratégica completada, como não se deve esquecer, pela tal questão da «empregabilidade» - de que não nego a importância (também tenho filhos), mas que me recuso em erigir em argumento absoluto, sobretudo se for a «empregabilidade» num País onde o tecido empresarial quase só tem necessidade de trabalho não muito qualificado. E insisto nesta questão da empregabilidade porque os reitores, na minha opinião, realmente deixaram-se erradamente cativar como os culpados nesta questão. Viria a salvá-los Rodrigo Costa. Este já recentemente tinha afirmado que os quadros da PT não ficavam a dever em nada aos da Microsoft, de que foi dirigente inclusive na sua sede em Seattle. Ali, no programa, disse que a experiência que tem da PT é que a Universidade forma os quadros de qualidade que a sua empresa necessita e que, se precisasse de mais, estes não faltariam. Disse ainda que o problema residia nas pequenas e médias empresas que - e foi muito diplomático - não os conseguem encontrar porque terão dificuldade em conseguirem aceder aos formados universitários. Antes fosse isso. Eles não os querem… nalguns casos têm mesmo medo da hipótese. Daí o dizerem dos saídos da Universidade: Estão verdes, não prestam. Não se costuma dizer, voz do Povo, voz de Deus?
Enfim, os tais 46% de aumento na «Ciência» - o cumprimento do tal Plano Tecnológico - afinal redundaram numa das maiores reduções sectoriais do OE, senão na maior de todas! E mais rigoroso que referir tratar-se de uma ficção, como disse o Reitor da Universidade Clássica de Lisboa, é o termo falácia aplicado por um dirigente estudantil. A minha sensação é de que, mais que reino dos pinóquios a cheirar a meninos, é de propaganda de banha da cobra que se trata.

( ) Colega de formação universitária e familiar, e de quem sou amigo, é um cientista de renome internacional na área da Inteligência Artificial.


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